sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Meu Fado - Fafá de Belém


1. Canção grata
(Teresa Silva Carvalho - Carlos Queiroz)

Por tudo o que me deste
Inquietação cuidado
Um pouco de ternura
É certo mas tão pouca

Noites de insónia
Pelas ruas como louca
Obrigada, obrigada

Por aquela tão doce e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui

Sem ironia aceita
A minha gratidão
Que bem que me faz agora o mal que me fizeste

Mais forte e mais serena
E livre e descuidada
Sem ironia amor obrigada

Obrigada por tudo o que me deste
Por aquela tão doce e tão breve ilusão
Embora nunca mais
Depois de que a vi desfeita
Eu volte a ser quem fui
Sem ironia aceita
A minha gratidão

2. Canoa do Tejo
(Frederico de Brito)

Canoa de vela erguida
Que vens do Cais da Ribeira,
Gaivota que anda perdida
Sem encontrar companheira,

O Vento sopra nas Fragas,
O Sol parece um morango
E o Tejo baila com as vagas
A ensaiar um fandango

Canoa, conheces bem,
Quando há Norte pela proa,
Quantas docas tem Lisboa
E as muralhas que ela tem!

Canoa, por onde vais,
Se algum barco te abalroa,
Nunca mais voltas ao Cais!
Nunca, nunca, nunca mais!!

Canoa de vela panda
Que vens da Boca da Barra
E trazes na aragem branda
Gemidos duma guitarra,

Teu arrais prendeu a vela;
E se adormeceu, deixá-lo!
Agora muita cautela
Não vá o Mar acordá-lo!

3. Nem às paredes confesso
(Francisco Ferrer Trindade - Maximiano de Sousa - Artur Joaquim Almeida Ribeiro)

Não queiras gostar de mim
Sem que eu te peça,
Nem me dês nada que ao fim
Eu não mereça

Vê se me deitas depois
Culpas no rosto
Eu sou sincera
Porque não quero
Dar-te um desgosto

De quem eu gosto nem às paredes confesso
E nem aposto
Que não gosto de ninguém
Podes rogar
Podes chorar
Podes sorrir também
De quem eu gosto
Nem às paredes confesso.

Quem sabe se te esqueci
Ou se te quero
Quem sabe até se é por tique eu tanto espero.
Se gosto ou não afinal
Isso é comigo,
Mesmo que penses
Que me convences
Nada te digo.

4. Sombras da madrugada
(Antônio José Lopes Lampreja - Ferrer Trindade)

Vi uma sombra bem unida
a dela e a tua
e a minha sombra já esquecida
surpreendida
parou na rua!
os dois bem juntos, tu e ela
nenhum reparou
que a outra sombra era daquela
que tu não queres
mas já te amou!
É madrugada não importa
neste silêncio há mais verdade
a noite é triste e tão sózinha
parece minha
toda a cidade!
nem um cigarro me conforta
nem o luar hoje me abraça
eu não te encontrarei jamais
e nestas noites sempre iguais
sou mais uma sombra que passa
sombra que passa e nada mais.
Ao longo desta madrugada
a sombra da vida
mora nas pedras da calçada
já não tem nada
anda perdida
quando a manhã, desce enfeitada
no sol, que a procura
nem sabe quanto a madrugada
chora baixinho
tanta amargura!

5. Sempre que Lisboa canta
(Carlos Rocha - Anibal Nazaré)

Lisboa cidade amiga
que és meu berço de embalar
ensina-me uma cantiga
das que tu sabes cantar
Uma cantiga singela
Daquelas de enfeitiçar
P'ra eu cantar à janela
Quando o meu amor passar

Sempre que Lisboa canta
Não sei se canta
Não sei se reza
A sua voz com carinho
Canta baixinho
Sua tristeza
Sempre que Lisboa canta
à gente encanta
Sua beleza
Pois quando Lisboa canta
Canta o fado
com certeza

Eu quero dar-te um castigo
Por tanto te ter amado
Quero que cantes comigo
Os versos do mesmo fado
Quero que Lisboa guarde
Tantos fados que cantei
Para cantar-me mais tarde
Os fados que lhe ensinei

6. Procuro e não te encontro
(Nobrega e Sousa - Antônio José)

Procuro e não te encontro
Não paro, nem volto atrás
Eu sei, dizem todos que é loucura
Eu andar à tua procura
Sabendo bem onde tu estás!
Procuro e não te encontro
Procuro nem sei o quê!
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas não te encontro!
Preferes a outra e queres
Que eu nunca, vá ter contigo
Por isso, tenho um caminho marcado
E vou procurar-te ao passado
Para lembrar o amor antigo
Procuro e não te encontro,
Procuro, nem sei o quê
Só sei, que por vezes ficamos frente a frente
E ao ver-te ali finalmente
Procuro, mas... não te encontro!

7. Confesso
(José Galhardo - Frederico Valério)

Confesso que te amei, confesso
Não coro ao te dizer, não coro
Pareço outra mulher, ai, pareço
Mas lá chorar por ti, não choro

Fugir do amor tem seu preço
E a noite em claro atravesso,
longe do meu travesseiro
Começo a ver que não esqueço,
mas lá perdão não te peço,
sem que me peças primeiro

De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o meu amor na vida

Não penses mais em mim, não penses
Não estou nem para te ouvir por carta
Convences as mulheres, ai, convences
Estou farta de saber, estou farta
Não escrevas mais, nem me incenses
Quero que tu me diferences,
dessas que a vida te deu
A mim já não me pertences,
Vir a vencer-me não vences,
porque vencida estou eu

De rastros a teus pés, perdida te adorar
Até que me encontrei perdida
Agora já não és na vida o meu senhor
Mas foste o grande amor da minha vida

8. Fado das queixas
(Frederico de Brito - Carlos Rocha)

P'ra que te queixas de mim
Se eu sou assim
como tu és,
Barco perdido no mar
Que anda a bailar
Com as marés?
Tu já sabias
Que eu tinha o queixume
Do mesmo ciúme
Que sempre embalei...
Tu já sabias
Que amava deveras;
Também quem tu eras,
Confesso, não sei!

Não sei
Quem és
Nem quero saber,
Errei
Talvez,
Mas que hei-de fazer?
A tal paixão
Que jamais findará,
-- Pura ilusão! --
Ninguém sabe onde está!
Dos dois,
Diz lá
O que mais sofreu!
Diz lá
Que o resto sei eu!

P'ra que me queixo eu também
Do teu desdem
Que me queimou
Se é eu queixar-me afinal
Dum temporal
Que já passou?
Tu nem calculas
As mágoas expressas
E a quantas promessas
Calámos a voz!
Tu nem calculas
As bocas que riam
E quantas podiam
Queixar-se de nós!

9. Olhos castanhos
(Alves Coelho)

Teus olhos castanhos
de encantos tamanhos
são pecados meus,
são estrelas fulgentes,
brilhantes, luzentes,
caídas dos céus,
Teus olhos risonhos
são mundos, são sonhos,
são a minha cruz,
teus olhos castanhos
de encantos tamanhossão raios de luz.
Olhos azuis são ciúme
e nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
de uma tristeza sem fim,
olhos verdes são traição
são crueis como punhais,
olhos bons com coração
os teus, castanhos leais.

10. Só nós dois
(Joaquim Pimentel)

Só nós dois é que sabemos
O quanto nos queremos bem
Só nós dois é que sabemos
Só nós dois e mais ninguém
Só nós dois avaliamos
Este amor, forte, profundo...
Quando o amor acontece
Não pede licença ao mundo
Anda, abraça-me... beija-me
Encosta o teu peito ao meu
Esqueça o que vai na rua
Vem ser meu, eu serei tua
Que falem não nos interessa
O mundo não nos importa
O nosso mundo começa
Ca; dentro da nossa porta.
Só nós dois é que sabemos
O calor dos nossos beijos
Só nós dois é que sofremos
As torturas dos desejos
Vamos viver o presente
Tal-qual a vida nos dá
O que reserva o futuro
Só Deus sabe o que será.

11. Só à noitinha
(Frederico Valério - Raul Ferrão - Amadeu do Vale)

Tive-lhe amor
Gemi de dor
De dor violenta
Chorei sofri
E até por si
Fui ciumenta
Mas todo o mal
Tem um final
Passa depressa
E hoje você
Não sei porquê
Já não me interessa
Bendita hora
Que o esqueci
Por ser ingrato
E deitei fora
As cinzas do teu retrato
Desde desse dia
Sou feliz sinceramente
Tenho a alegria
Pra cantar e andar contente
Só à noitinha
Quando me chega a saudade
Choro sozinha
Pra chorar mais à vontade

12. Memórias
(Leonardo Sullivan)

Você foi a maior das minhas amarguras
E vive até hoje na minha loucura
E foi a mais cruel de todas as vitórias
E faz parte do livro das minhas memórias
Lembrar de que nada de bom você me deu
Só machuca alguém que não viveu
Vou recomeçar
Vou tentar viver
Vou tirar você da minha vida
E pra não chorar
Antes de partir
Vou tentar sorrir na despedida
E agora que voltei à minha realidade
Tentando esquecer que tudo foi verdade
Vou rebuscando fundo nas minhas memórias
Pra riscar você da minha história
Vou recomeçar
Vou tentar viver
Vou tirar você da minha vida
E pra não chorar
Antes de partir
Vou tentar sorrir na despedida

13. Tudo isto é fado
(F. Carvalho - Anibal Nazaré)

Perguntaste-me outro dia
Se eu sabia o que era o fado
Eu disse que não sabia
Tu ficaste admirado
Sem saber o que dizia
Eu menti naquela hora
E disse que não sabia
Mas vou-te dizer agora
Almas vencidas
Noites perdidas
Sombras bizarras
Na mouraria
Canta um rufia
Choram guitarras
Amor ciúme
Cinzas e lume
Dor e pecado
Tudo isto existe
Tudo isto é triste
Tudo isto é fado
Se queres ser meu senhor
E teres-me sempre a teu lado
Não me fales só de amor
Fala-me também do fado
É canção que é meu castigo
Só basceu p'ra me perder
O fado é tudo o que eu digo
Mais o que eu não sei dizer

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